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sábado, 15 de fevereiro de 2014

Resenha: The Winds of Khalakovo

Durante um bom tempo entre o fim de 2012 e o início de 2013 eu me envolvi bastante com financiamento coletivo, em especial pelo Kickstarter. Achei a ideia fantástica, especialmente porque via projetos das minhas três áreas favoritas (literatura, video games e RPGs) ganhando uma oportunidade que as publicadoras não queriam arriscar. Foi a época de jogos como Shadowrun Returns e Project Eternity e o livro de contos Tales of the Emerald Serpent. Foi, também, a chance de recomeçar para outros, como o autor Bradley P. Beaulieu.

The Winds of Khalakovo é o primeiro livro de uma trilogia de fantasia que felizmente foge do padrão. É, sim, uma história épica de heroísmo, mas uma inspirada na cultura da rússia czarista misturada a uma versão mística árabe. Tem um quê de steampunk, mas troca o vapor pela energia elemental.

Resumindo o cenário: as ilhas de Anuskaya forma o Grande Ducado, onde famílias nobres controlam o comércio através do uso de navios voadores movidos por nômades capazes de controlar os elementos. Rotas comerciais são formadas linhas ley, mantidas pelas matriarcas de cada uma das famílias nobres. Mas existe uma tensão não só entre as famílias nobres como entre eles e os antigos nativos do arquipélago, os Aramahn.

Esse livro, assim como sua continuação, foram publicados pela Night Shade Books em 2011 e 2012, e o foco da campanha de financiamento coletivo foi para a publicação do terceiro. Mas, se ele tinha editora, porque ir ao Kickstarter?

Vou resumir a questão aqui para quem nunca ouviu falar da Night Shade. Ela é uma editora pequena coordenada por um casal que adora ficção fantástica. Publicaram e republicaram muitos livros excelentes ao longo de sua história, mas a partir de 2012 começou a enfrentar problemas financeiros. Existem diversos artigos e posts sobre o assunto pela internet, cada um dando seu ponto de vista sobre o que aconteceu. O que parece ser o mais acreditado é que o casal responsável tinha muita vontade de publicar, mas não tinha o tino comercial necessário. O problema levou à necessidade da editora de renegociar vários contratos e ao atraso no pagamento dos royalties de vários autores. No caso do Bradley, o terceiro livro da trilogia seria adiado por muito tempo. Após uma negociação com a Night Shades, ele recuperou os direitos do livro e buscou o financiamento coletivo para garantir que o livro sairia em 2013.

O financiamento foi mais do que um sucesso: obteve o dobro do pedido. Ao meu ponto de vista consegui uma barganha. Adquiri os três livros da trilogia e mais dois livros de contos (todos em ebook) por $15.

O livro segue três personagens: Nikandr, filho mais novo do duque de Khalakovo, destemido capitão de um navio voador; Rehada, uma Aramahn capaz de controlar elementos do fogo, amante de Nikandr; e Atiana, filha do duque de Vostroma, usada a contra gosto como peão no jogo político dos ducados.

Rehada é amante de Nikandr, que está prometivo a se casar com Atiana por questões políticas. Logicamente existe muito mais por trás desse relacionamento. Uma praga de origem desconhecida vêm surgindo pelas ilhas, e Nikandr busca uma cura para salvar sua irmã. Um movimento renegado surge entre os nômade. Um golpe de estado se arranja entre os nobres. E um jovem autista que parece ter muito mais poder do que qualquer outro Aramahn pode ser a chave de tudo isso.

O livro usa muitos termos originais ou inspirados em russo e árabe, como o nome das tropas da realeza e o nome dos seres elementais. Falando nesses seres, eles aparecem bastante pelo livro, e você acaba precisando memorizar um termo ou outro para lembrar quem é o elemental do fogo, qual é o da água, etc.

Enquanto a ideia dos elementais usados para manipular navios voadores não é exatamente novidade, na história mistura-se outro elemento mágico, típico dos nobres, que em muito remete ao Minority Report. As matriarcas das famílias passam longas horas imersas em água gelada, o que as permite sair do corpo. Nessa forma podem ver e ouvir o que acontecem por toda a parte como fantasmas, ou possuir corvos que usam para se comunicar com pessoas do mundo físico. São, ainda, responsáveis por manter as linhas ley, que funcionam como uma espécie de correnteza entre as ilhas do arquipélago.

O que começa como uma história de romance ganha vários níveis de complexidade quando começam a acontecer ataques terroristas, um assassinato na corte e o surgimento supostamente expontâneo de elementais poderosíssimos. Na medida em que a história se desenrola, os personagens começam a ganhar mais força, especialmente a princesa Atiana, que começa como um personagem empurrado de um lado para o outro pelos desejos do pai e do irmão mais velho. Em certo ponto a história ganha um tom mais místico, um tanto que no sentido de “o escolhido,” o que para mim pelo menos tirou um pouco do tesão, sim como aconteceu lendo The Hundred Thousand Kingdoms da N.K.Jemisin.

Li The Winds of Khalakovo no iPad (e vez ou outra no iPhone), o que eu acho que pesou um pouco na leitura. Acabei levando bastante tempo para terminar de ler, especialmente da metade para frente. Isso veio mais ou menos no mesmo tempo em que eu perdi um pouco do tesão pela história (apesar de ter gostado do cenário). Acabei tendo que me forçar a continuar a ler. Mais pelo final do livro eu senti que ele ganhou mais força, mas não tanto quanto tinha no começo.

Isso tudo pode ter sido reflexo da forma de leitura, pois foi o primeiro livro (não-conto) que li inteiramente no iPad (que é um tanto disputado aqui em casa). Ler no iPhone também não ajudou.

De qualquer forma, Winds of Khalakovo tem um cenário novo e que vale a leitura por ele. A história em si não me atraiu tanto. No meu caso, de ter comprado o livro por uma barganha, valeu com certeza. Não sei se sentiria a mesma coisa se tivesse pago R$20+ por ele.

Links:
Resenha: The Hundred Thousand Kingdoms

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Resenha: Homens e Monstros - A Guerra Fria Vitoriana


Em setembro de 2013 aconteceu em São Paulo a Fantasticon, um evento que reúne fãs e criadores de obras (livros e quadrinhos em especial) de ficção científica, fantasia e terror. Mencionei em uma resenha anterior que fui em um dos dias do evento e saí de lá com vários livros. Agora é a vez de resenhar o romance de história alternativa (steampunk?) Homens e Monstros, do autor Flávio Medeiros Jr.


Conheci o Flávio na época em que estava para lançar meu primeiro livro, Véu da Verdade, através do Clube de Leitores de Ficção Cientifica (CLFC). Na época ele também estava lançando o seu primeiro romance, o cyberpunk Quintessência. Acabamos fazendo um acordo de cavalheiros e trocamos livros um com o outro, depois trocamos emails com o que achamos da obra um do outro. De lá pra cá encontrei o Flávio em vários eventos. Hoje quem faz parte das listas de ficção fantástica ou participa de eventos já conhece o Flávio, que sempre tem alguma história para contar.

Homens e Monstros é o terceiro livro do Flávio, o primeiro pela Editora Draco. É na verdade uma coletânea de seis contos longos amarrados pelo cenário (uma Guerra Fria fictícia entre o Império Britânico e a Grande France no final do século 19) e por alguns personagens que aparecem ou são mencionados em boa parte das histórias. A ideia no geral é história alternativa: devido a uma série de eventos, o final do século 19 chega com esses dois impérios dominando direta ou indiretamente todo o mundo. Assim como a verdadeira Guerra Fria entre EUA e URSS envolveu espionagem, assassinato, sabotagem e o financiamento de guerras, o mesmo se dá neste mundo. A grande diferença fica nos elementos de ficção fantástica. Flávio amarrou histórias, personagens e eventos de romances e contos vitorianos ao seu mundo, de forma que você encontrará referências à 20.000 Léguas Submarinas, A Ilha do Doutor Moreau, O Médico e o Monstro entre outras.

Em O som e o aroma da morte, os agentes da Grande France Axel Lindebrock (do romance Viagem ao Centro da Terra, de Jules Verne) e Maucler (também criado por Jules Verne) são enviados pelo chefe do Serviço Secreto francês Augustine Dupin (o detetive criado por Edgar Allan Poe) para encontrar o cientista , radicado na Confederação Argentina, que teria criado um artefato tecnológico poderosíssimo. É uma história de assassinato e espionagem que (pelo que eu entendi) se amarra a contos fantásticos argentinos do século 19.

Homens e Monstros é uma nova versão do romance O Médico e o Monstro, do escocês Robert Louis Stevenson. Confesso que lembro pouco da história original, mas me pareceu ser uma história bem próxima da versão original (em especial pelos personagens envolvidos), mas com um final diferente e elementos que a tornam bastante ligada a uma outra história do livro.

Máscaras é uma espécie de prólogo para A Ilha do Doutor Moreau. O sargento inglês Douglas Montgomery (uma versão do biólogo Montgomery do livro original) chega a um posto militar na Nigéria, onde acaba envolvido em uma missão de resgate subindo o Rio Níger até Serra Leoa. A aventura envolve diversos outros personagens  (pelo menos dois do romance Cinco semanas em um balão, de Verne) em uma trama cheia de reviravoltas (diria até cheia demais).


Em O lamento da águia o azteca (com ‘z’ mesmo) Itzcoatl está passando pelo ritual para se tornar um estimado membro da Ordem da água, a inteligência do Império Azteca, e acaba se envolvendo na investigação do desaparecimento do seu irmão gêmeo. No mundo deste livro, o Império Azteca jamais foi conquistado pelos espanhóis, e acabou aliando-se ao Império Britânico. Com esse apoio, hoje controla boa parte da América Central e do Sul, guerreando constantemente com “os ibéricos” (espanhóis e portugueses aliados à Grande France). Essa ligação aparece bem forte no livro, mostrando desde a influência da cultura britânica na cultura azteca até reflexos do que acontece na América do Sul no resto da história. Essa história se amarra ao Homens e Monstros.



Os primeiros aztecas na lua trás diversos personagens de volta, com direito a aparição do próprio Jules Verne e menção a seu “rival inglês”, H.G. Wells. É uma história de espionagem que brinca com várias histórias de ambos os autores. O protagonista é Edward Prendick, o inglês protagonista de A Ilha do Doutor Moreau que, ao retornar de sua experiência na ilha, acaba se tornando agente duplo para a Grande France (neste mundo, o Dr. Moreau é um francês que recebe apoio do Império Britânico para fazer pesquisas que a Grande France foi contra). A história é a mais fantástica do livro e ainda mistura fatos reais à trama. Acho que é o melhor dos contos do livro.

O último conto chama-se Por um fio. A história foi publicada anos atrás na coletânea Steampunk da Tarja Editorial. Li o conto na época, mas lembrava pouquíssimo. Parece que foi ajustado para fazer parte do mesmo mundo deste livro. O protagonista é o Capitão (Almirante no conto) Nemo, comandante da frota de submarinos da Grande France, e gira em torno de um encontro com seu rival americano, Robur, líder da esquadrilha de dirigíveis britânicos (ambos personagens de Jules Verne). É uma história lenta onde mais se pensa do que se faz. Achei a mais fraca do livro.

O livro é muito bom, em especial pela brincadeira que faz misturando personagens e fatos fictícios com história alternativa. Pessoalmente eu esperava que as histórias fossem mais amarradas umas às outras. No geral o que as liga é o cenário da Guerra Fria, o que obviamente faz todo sentido. Fora a menção de personagens aqui e ali, os únicos contos realmente ligados pela história são Homens e Monstros e O lamento da águia. O problema acaba sendo na ordem. Do jeito que ficaram os contos, o primeiro conto do livro já dá dois spoilers sobre o final de O lamento da águia. Além disso, algumas coisas acabam sendo repetidas ao longo das histórias de forma que (ao meu ver) fica desnecessário, como personagens recontando fatos.

Falando nisso, o único ponto fraco do livro é exatamente o excesso de “exposição”. Todos os contos tem pelo menos uma (geralmente duas, às vezes mais) momentos em que o protagonista narra eventos passados, expondo a história ou fatos por trás do enredo. Vez ou outra o mesmo é feito como se fossem dois personagens conversando, mas invariavelmente se torna um personagem explicando ao outro sobre um terceiro personagem. A sensação acaba sendo de uma travada no fluxo da leitura, quase como uma parede de texto que ficaria melhor apresentada ao longo da história ou, em alguns casos, como outro conto.

Outro comentário que vale mencionar é que, apesar dos contos serem todos escritos em primeira pessoa, pelo protagonista de cada história, alguns terminam com um trecho em terceira pessoa (marcado em itálico). No geral eu dispensaria esses finais, em especial o final de Homens e Monstros, que me pareceu enfiado ali para explicar algo que poderia ter sido deixado de lado, ou mesmo mencionado em outro conto. O formato em primeira pessoa funcionou muito bem como esta.

O livro Homens e Monstros - A Guerra Fria Vitoriana é um livro muito bom que vale para fãs de história alternativa, H.G. Wells e Jules Verne, steampunk e tantas outras obras e estilos.

Links:
Site do livro
Fantasticon
Jules Verne (wikipedia)
H.G. Wells (wikipedia)

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Resenha: Farei Meu Destino

Eu comecei a escrever resenhas por dois motivos: primeiro porque me faz organizar minha visão crítica da grande quantidade de livros que eu leio por ano; segundo para servir de força motriz por trás deste blog. Não que eu me considere um crítico literário. Nem sou nem quero ser. Sou leitor e sou escritor, ponto. Mas, além disso me ajudar como escritor, acredito que é muito mais válido produzir resenhas de livros e divulgar estas obras do que escrever abobrinha que ninguém quer saber.

Da primeira resenha em Julho para cá esse trabalho começou a chamar um pouco de atenção, tanto que mês passado um escritor me pediu para fazer uma resenha do seu livro, o qual recebi duas semanas. O nome do livro: Farei meu destino do escritor carioca Miguel Carqueija.

Não conheço o Carqueija pessoalmente, mas ambos fazemos parte do Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC) e já discutimos assuntos diversos aqui e ali, mas parando para pensar eu só sei mesmo três coisas sobre o Carqueija:

1. Ele escreve e publica muito na web;
2. Ele é Cristão devoto;
3. Ele gosta bastante de Sailor Moon.

Curiosamente (ou não) os pontos 2 e 3 poderiam resumir o perfil do livro alvo dessa resenha.

No prefácio do livro, escritor por Cesar Silva, fica logo claro: este livro é inspirado em animações japonesas (animé), o que fica extremamente claro lendo o livro. Foi difícil não lê-lo sem imaginar os personagens de olhos enormes, saias curtas e coloridas fazendo expressões faciais exageradas. Não é demérito nenhum, para ficar claro. Pessoalmente eu até hoje só gostei de dois animés que assisti, Cowboy Bebop e Robotech/Macross, mas, como ficou claro logo de cara que era esse o formato buscado pelo autor, não faria sentido algum criticá-lo.

A história se passa em um futuro não especificado que parece estar se recuperando de uma guerra pós-apocalíptica. A única referência de tempo dada é que a história se passa oitenta anos após uma desastrosa “Guerra Calórica”. A não ser que isso se refira à moda atual de atletas de fim de semana naturebas que frequentam academias, imagino que a história se passa pelo menos 100 anos no futuro. Inclusive, aproveitando o ensejo, nomes de personagens, lugares e fatos históricos seguem esse formato “esquisito”, meio inocente, que é bem comum em alguns animés.

No livro, um grupo de seis meninas planeja e consegue escapar de um orfanato isolado onde são maltratadas pela diretora e professores. Como é de se esperar de um livro baseado em animés de ação, as seis meninas escapam em meio a situações impossíveis usando roupas de ninja e brandindo bastões. Desde ponto em diante elas seguem para conhecer o mundo além dos muros do orfanato em busca do Padre Montezuma, antigo amigo da líder da rebelião. Acusadas de assassinato e destruição, elas são perseguidas pela polícia e a madre superiora, que logo revela-se ter muito mais influência além do orfanato do que se podia imaginar.

Seguindo essa premissa e a ideia de ser inspirado em um desenho como Sailor Moon eu poderia dizer que é um livro infanto-juvenil que eu até passaria para minha filha ler.

CALMA! Não faça isso! Duas coisas impedem esse livro de poder atingir esse público.

Primeiro se refere ao linguajar usado. Palavras “difíceis” estão espalhadas por todo o livro, muitas que nem eu conheço. Segundo que o livro aborda explicitamente de temas bastante sérios, como tortura, prostituição infantil e estupro. Uma menina que chegasse ao final do primeiro capítulo provavelmente ficaria traumatizada para o resto da vida.

Aí entra minha dúvida sobre a intenção do autor. Eu sei que animés não são sempre desenhos para crianças, mas a narrativa do livro, os personagens, o foco no “amor como o poder maior que cura tudo”, e até mesmo a inocência e espontaneidade com que certas situações acontecem me soaram muito como uma história infantil. O mesmo vale para a superficialidade de alguns dos (muitos) personagens. Mas esses dois elementos acima acabam por tornar a história completamente inviável para qualquer adolescente (e talvez até para alguns adultos).

Pessoalmente o livro não me desceu bem. Pode ter sido por não gostar de animé. Pode ter sido pela mistura que para mim soou estranha, de personagens, diálogos e situações infantis misturadas a fatos e temas obviamente adultos. Não sei bem. Só sei que tenho dificuldade de recomendar esse livro para qualquer um que não seja maduro o suficiente e goste de animé, mas sempre deixando bem claro que pessoalmente não gostei do livro.

Links:
Site do livro (Giz Editorial)
Site CLFC
Animé na Wikipedia
Abertura de Sailor Moon
Abertura de Cowboy Bebop
Abertura de Robotech / Macross

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Resenha: Deuses de Dois Mundos - O Livro do Silêncio

“Storytelling” é hoje o foco de muitas agências de publicidade no mundo. Não apenas se apresenta uma marca; conta-se uma história. É o caso da Pereira & O’Dell, premiada agência de publicidade de São Francisco (agora com escritórios em Nova Iorque e São Paulo) que criou campanhas como “The Beauty Inside” da Intel que esse ano (2013) ganhou um Emmy. A relevância disso? PJ Pereira, o diretor criativo e co-fundador dessa agência, lançou mês passado seu primeiro romance, Deuses de Dois Mundos - O Livro do Silêncio.


Não sei bem como enquadrar o livro para quem quer saber de bate e pronto. É fantasia, talvez fantasia urbana, mas não é. A história segue dois eixos: um jornalista paulista em 2001 e um adivinho iorubá no período mitológico africano. Por si só a ideia já me interessou. Gosto do tema de cultura africana, que inclusive é também a inspiração para um romance de fantasia que sairá pela Draco em 2014. Mas o foco do Livro do Silêncio é em contar uma versão da mitologia iorubá (mais conhecida no Brasil pelos orixás, jogos de búzios e mães de santo) e interligá-la a vida de um sujeito que até então nada tinha de interesse nessa religião.


Já aviso logo: sou primo do autor. Seis anos e muitos quilômetros nos separam. Quando eu tinha uns 14 anos, eles se mudou para São Paulo para seguir a carreira publicitária e, depois disso, para São Francisco. Nossa mais forte conexão sempre foi o gosto por desenhar (coisa que nem ele nem eu fazemos tanto quanto antes) e por contar histórias em mídias não tradicionais. Não, isso não quer dizer que eu só vou elogiar. Eu sou chato e acho que vocês já sabem disso.


Como era de se esperar considerando o histórico do autor, a narrativa do livro não é tradicional. Fora o prólogo e o epílogo, o livro intercala capítulos ímpares na forma de emails enviados pelo jornalista Newton Fernandes a um misterioso benfeitor com capítulos pares num estilo de contação de história, quase conto de fadas, quase inocente na sua estrutura.


No primeiro eixo da história temos Newton envolvendo-se primeiro em uma história de sabotagem industrial, jogos de poder e de influência. Em meio às investigações, o protagonista acaba se envolvendo com coisas que não compreende. É o que o motiva a enviar um email “a quem possa ajudá-lo a compreender o que está acontecendo”. É o primeiro capítulo do livro. A trama se desenrola, então, sempre na forma de um email de resposta de New para um benfeitor desconhecido apelidado de Laroiê. Este enigmático personagem que nunca realmente vemos no livro diz-se um entendido de assuntos esotéricos e pede para que New conte sua história.


Exatamente por não ser um formato tradicional esse eixo da história pode causar estranhamento. Gostei da ideia, mas é difícil não sentir um certo distanciamento do que está acontecendo. Isso já é um efeito comum em livros narrados em primeira pessoa, mas parece ainda maior aqui. Talvez seja a falta de sensação de urgência. Os perigos descritos obviamente foram resolvidos. É como ouvir um amigo contando uma história que aconteceu com ele. Pode ser empolgante, mas você sabe que no final das contas tudo acabou bem (o que nem sempre é o caso em um romance de ficção narrado em primeira pessoa)

Ao mesmo tempo, a trama em si, os eventos inesperados que New contam, acabam sendo tão interessantes que te fazem querer seguir para o próximo capítulo (ímpar) para saber como se segue.


Meu outro problema é que Newton soou como um cara muito escroto, um playboy metido, quase. Pelo que li nos agradecimentos, um dos leitores beta do livro o chamou de insuportável, o que levou o autor a modificá-lo. Acho que se mantém que, no fundo, era o que o PJ tinha em mente para o Newton.


O segundo eixo da história, contado nos capítulos pares, segue Orunmilá, um babalaô (homem sábio, adivinho) vivendo no período mitológico iorubá (o que seria a atual Nigéria). Ao descobrir que seus búzios não respondem mais as suas perguntas, Orunmilá envia seu jovem ajudante Exu (reconhece o nome?) para descobrir o problema. A resposta leva Orunmilá a partir em uma viagem para salvar o destino dos homens em algo que poderia remeter a muitas histórias de fantasia épica como a Sociedade do Anel e de filmes como Krull.


Assim como é o caso com os capítulos ímpares, esses vêm num formato diferente do usual (para hoje em dia). A narrativa é claramente inspirada na contação de histórias em torno de uma fogueira. O narrator pula entre personagens, passa apenas superficialmente aqui e ali, deixa um suspense para o leitor (ou ouvintes), que se revela mais tarde. Inclusive a história costura várias pequenas histórias do tipo que se ouve dos “mais velhos”, típicas do folclore.


O resultado disso é uma narrativa até certo ponto ingênua, cheia de situações impossíveis se resolvendo e decisões que parecem ser sem sentido. Isso acaba se costurando bem aos personagens, em grande parte arquétipos inspirados no que se fala sobre os orixás e o que representam na cultura iorubá. De novo deu para sentir que foi proposital.


Ao longo da história os dois eixos narrativos se misturam, deixando uma ponta para o segundo livro, anunciado para 2014. Note que o livro original foi considerado grande demais pela editora, de forma que ele foi reestruturado como uma trilogia. Enquanto a forma que foi publicado o livro tem início, meio e fim, eu particularmente senti que faltou um desfecho melhor para as “duas” histórias. Isso em especial porque eu não gosto de trilogias que são na verdade um livro gigante (como é também o caso do Senhor dos Anéis), mas também porque a meu ver algumas soluções no final do livro me pareceram meio jogadas lá, especialmente no eixo moderno, com o Newton.


Pessoalmente acho que o livro presta um grande serviço de mostrar o que é a cultura africana tão mal entendida no Brasil, onde muitos a reconhecem apenas como “macumba”. Pontos extras por ser fantasia, ter magia, mas ir para BEM longe dos já batidos elfos, fadas e dragões.


Resumindo? Se você está no espírito para ler um bom livro sobre um tema pouco explorado, mas num formato narrativo diferente, manda ver.


Links:
Site Agência Pereira & O’Dell

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Resenha: The Hundred Thousand Kingdoms

Ouvi falar da autora desse livro faz algum tempo, todas as vezes sendo elogiada. N.K. Jemisin é uma norte americana que estreou como autora de fantasia com The Hundred Thousand Kingdoms, que acabou por ser o primeiro livro da trilogia Inheritance (que também é o nome de uma trilogia de ficção científica militar do Ian Douglas, mas isso não vem ao caso).

The Hundred Thousand Kingdoms é um livro de fantasia com magia, deuses e castelos impossíveis, mas que foge do formato tolkeiano. As “outras raças” desse mundo são todas humanas, todas unidas (à força) sob a égide do deus Itempas, o Consortium de Nobres e a família Arameri. E é por aí que começa a diferença desse fantasia em particular.

Na história, a família Arameri, descendentes da líder religiosa do culto à Itempas, o deus da ordem e da luz, controla o mundo há mais de dois mil anos a partir de Sky, um palácio-torre que flutua sobre a cidade de mesmo nome. Os Arameri mantém o controle do mundo pelo simples fato de possuírem as mais poderosas armas de destruição em massa desse mundo: Os outros deuses que perderam a guerra contra Itempas.

O foco da história é exatamente esse. Dekarta Arameri, atual patriarca da família (e, portanto, líder de facto do mundo) está prestes a escolher seu sucessor. Acontece que sua única filha morreu no exílio, deixando apenas uma filha considerada bastarda pela família Arameri. É aí que entra a protagonista, Yeine Darr, mestiça, bárbara, convidada a viver no covil de serpentes que é Sky. Yeine não aceita deixar sua herança Darr para se tornar Yeine Arameri pelo poder e o luxo, mas para descobrir a verdade sobre a morte de sua mãe e, de certa forma, também a verdade sobre a vida de sua mãe. Quem era ela? Por que ela deixou Sky para viver no norte considerado primitivo?

Yeini logo conhece as “armas de destruição em massa” dos Arameni, os deuses derrotados por Itempas e mantidos como escravos da família, e sua história de busca pessoal e vingança logo se mistura a desses cativos.

O universo desse livro é bem interessante e vai sendo revelado aos poucos na medida em que a própria Yeine o descobre. A certo ponto a história se revela uma história de “o escolhido”, o que no primeiro momento me deixou com um pé atrás, mas que acredito que seguiu bem. Uma outra nota curiosa foi que em algum momento o relacionamento entre Yeine e o mais poderoso dos deuses cativos, Nahadoth, lorde da noite, me fez pensar em como Crepúsculo poderia ter sido interessante se o casal fosse de personagens bem feitos, com iniciativa e um certo nível de “cool factor”, como é o caso em The Hundred Thousand Kingdoms.

É um bom livro de fantasia que surpreende com algumas reviravoltas até o fim. Por estar cansado da premissa do "escolhido" não digo que o livro é excelente, o que não quer dizer que você não ache. Sugiro que leia e descubra por conta própria.

Parece que no mesmo ano (2010) saiu uma continuação que tem o foco mais nas “pessoas comuns” (enquanto no primeiro o foco era na nobreza e líderes do mundo). Pelo que li do trecho inicial pareceu até mais interessante do que este. Um dia eu o lerei.

Links:
Site da autora

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Resenha: Espadachim de Carvão

Sempre surge uma discussão sobre autores pop de fantasia. Normalmente os alvos da discussão são o Eduardo Spohr, o Raphael Draccon e a Carolina Munhoz. Bom, nunca li nenhum dos três para saber são bons ou não, e, de certa forma, foi o que me levou a comprar O Espadachim de Carvão esses dias numa ida à Livraria Cultura.

Algumas semanas atrás o Jovem Nerd fez um podcast com o tema Literatura Fantástica Brasileira, onde apareceram Leonel Caldela, Raphael Draccon, Eduardo Spohr, Affonso Solano e André Vianco. Bem antes de ouvir ao podcast ouvi e li muita reclamação sobre esse cast. Metade das pessoas reclamava porque eram todos homens, metade reclamava que eram todos pop. Lógico que no meio dessas discussões surgiram dedos acusando-os de serem mal escritores, que só estavam lá porque vendiam, porque eram famosos por outros meios antes de se lançarem como autores, etc.

Eu me abstive da discussão porque só tinha lido dois daqueles autores. Li Bento do André Vianco e li (ou melhor, tentei ler... 3 vezes) O Inimigo do Mundo do Leonel Caldela. Bento não é ruim, mas me soou como a coisa mais comercial do universo (um cara com espada, escudo e armadura de metal caçando vampiros na São Paulo contemporânea?). Já O Inimigo do Mundo foi uma das piores coisas que eu já tentei ler na vida. Mas como o Caldela já lançou alguns livros depois desse, imagino que tenha melhorado.

Mas isso aqui não é sobre eles, e sim sobre O Espadachim de Carvão!

Eu conheci (virtualmente) o Affonso Solano uns 4 anos atrás quando trabalhava na Hoplon. Participei de um podcast do Matando Robôs Gigantes falando do Taikodom e uns meses depois voltei em outro podcast sobre o jogo Mass Effect 2. Ambos os papos foram extremamente divertidos, mas foi isso. Depois de um tempo não tive mais contato com ele.

Resolvi ouvir o podcast de curiosidade não só sobre o que era dito, mas em particular para saber mais sobre o romance do Affonso. E uma coisa que ele disse atraiu minha atenção: que o livro era inspirado nas séries de livros-jogos Aventuras Fantásticas (Fighting Fantasy do inglês). Essa série foi um marco importantíssimo na minha vida e futura carreira como escritor e game designer. Ganhei o A Masmorra Infernal (edição portuguesa) quando tinha uns 10 anos de idade, e isso me levou tanto aos RPGs quanto à literatura fantástica. Fiquei com isso na cabeça.

Algumas semanas depois, na obrigatória xeretada pela sessão de Literatura Fantástica da Livraria Cultura do Market Place, encontrei o livro e resolvi levar. Coincidiu que tinha acabado de terminar O Homem Fragmentado do Tibor Moricz (resenhado aqui semana passada), então peguei-o para ler.

A primeira coisa a dizer é que realmente tive a sensação de estar com um daqueles antigos livros do Ian Livingstone e do Steve Jackson nas mãos. Somando à sensação estavam as ilustrações no topo de cada capítulo feitas pelo próprio autor (que é ilustrador profissional).

O livro narra a história de Adapak, o jovem filho de um deus que sabe a mais letal técnica de combate com espadas, mas nunca precisou empregá-las de verdade. Adapak acaba sendo forçado para fora do lar onde viveu toda a sua vida, para enfrentar o “mundo de verdade”. Adapak é jovem e inocente ao extremo, o que acaba funcionando muito bem na narrativa que apresenta o mundo ao leitor e ao protagonista ao mesmo tempo.

Começo dizendo que para um livro de estréia é um livro muito bom. Não quero menosprezar dizendo isso. A questão é que dá para sentir que o autor é cru em alguns momentos, em algumas descrições e ações, mas ainda assim superior a muita coisa produzida no Brasil ultimamente. Há momentos em que o eu-escritor quis dar uma de editor e sugerir alterações. Um leitor-leitor provavelmente não teria essas pausas.


No geral a história me fez pensar em um romance de fantasia infanto-juvenil. Provavelmente entraria na categoria dos Young Adults lá fora. Novamente isso não é demérito algum. Apenas uma constatação. O personagem é um jovem de uns 19 anos, mas age como tendo uns 15, o que faz sentido considerando como cresceu isolado do mundo. Cenas cômicas aparecem ao longo do livro usando um humor bem leve, em geral com foco nas situações inusitadas em que o garoto se mete. Mas também há muito sangue, membros decepados e ação fantástica.

No livro Affonso cria um mundo próprio com criaturas próprias, algumas que eu mesmo gostaria de ter criado. Esse mundo acaba gerando um estranhamento curioso, pois passa bem longe do padrão de fantasia dos elfos, orcs e anões (o que para mim conta muitos pontos), mas ainda parece buscar referências em outras partes. Nomes de entidades sumérias aparecem aqui e ali e eu aposto que a raça dos nekelmulianos foi inspirada nos aliens do filme Independence Day.

O livro termina meio corrido. Quando fica claro que o protagonista vai precisar fazer uma viagem longa você começa a pensar “ferrou, o livro vai acabar aqui e eu vou ter que esperar o próximo para saber o que acontece.” Se fosse o caso eu estaria xingando muito no twitter. Não é o caso, mas a solução para o problema, apesar de bem integrada à história, me soou como Deus Ex Machina. De qualquer forma não estragou a experiência.

O livro vale a pena, especialmente se você gosta de fantasia e está de saco cheio do padrão Tolkien - Dungeons & Dragons.

Links:
O Espadachim de Carvão
Matando Robôs Gigantes
Nerdcast 379 - Literatura Fantástica Brasileira
Deus Ex Machina

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Resenha: O Homem Fragmentado

Demorei, mas fiz! Esta é a resenha do segundo dos quatro livros que comprei no Fantasticon de 2013 e um que me intrigou quando ouvi falar. O Homem Fragmentado do autor Tibor Moricz (editora Terracota). Conhecia o Tibor apenas virtualmente pelo CLFC e pela publicação de um conto meu na antologia Brinquedos Mortais da Editora Draco. Também já li seu livro Fome (Tarja Editorial), que gostei bastante (apesar do final que me pareceu sem pé nem cabeça).

A sinopse do O Homem Fragmentado me chamou a atenção. Um homem que se sente culpado pela morte do filho comete suicídio, mas no momento seguinte está vivendo uma outra vida onde o filho está vivo e bem.

Não sabia bem o que esperar. Eu confesso que tenho um pouco de pé atrás com romances contemporâneos, mesmo que fantásticos. Não sei bem o porquê disso. Não tive uma boa experiência lendo o Bento do André Vianco e já esbarrei com livros da dita Fantasia Urbana que não me desceram bem. Tanto que, na hora de pegar um próximo livro para ler, pensei duas ou três vezes antes de pegar O Homem Fragmentado. Acabei pegando. Li-o em uns 5 dias, o que para mim é bom sinal nesse fim de ano com infinitos projetos paralelos e pouco tempo para sequer dormir. Não porque terminou rápido! Sinceramente acho que a história é do tamanho certo, mas porque o livro acabou se revelando daquele tipo que você quer ler mais para saber o que vai acontecer em seguida.

É complicado falar do livro sem entregar demais a trama. Faz parte da experiência tentar entender junto com o personagem principal o que está acontecendo com ele. E já aviso logo que isso nunca é realmente esclarecido. Há teorias e você poderá formular as suas (eu mesmo fiz isso com as minhas), mas não existe resposta concreta. E, no final das contas, nem acho que precise.

Acho que já dá para perceber que gostei do livro. O ritmo é rápido e muitos dos capítulos acabam em cliffhangers, aqueles clássicos finais em que você precisa ler o que acontece depois.

O livro tem, sim, suas fraquezas. Ao longo do livro o personagem principal se repete em suas divagações sobre a vida e suas decisões ao ponto de que em alguns momentos eu acabei pulando um parágrafo ou outro porque sabia que “lá vem mais ladainha”. Curiosamente quando isso acontecia eu não via como “o autor fez errado,” mas sim como “oh cara chato” (me referindo ao personagem. Isso porque o livro é narrado em primeira pessoa e porque aquela repetição mental parece fazer sentido com o personagem deprimido lançado numa situação inesperada. É quase como ouvir aquele seu conhecido que sempre repete a mesma história de como ele se ferrou em tal situação. Nesse sentido esses momentos do personagem sendo chato acabou dando mais força à personalidade do protagonista. Bizarro, e eu nem sei se foi a intensão do autor, mas o efeito foi esse.

Quanto ao final, eu tenho mania de gerar uma expectativa X de como a história deve terminar e muitas vezes acabo de certa forma insatisfeito com o que eu encontro de verdade. O final fez sentido? De certa forma, sim. Mas, depois de tudo o que o personagem passou, eu esperava algo um pouco diferente. O fato da história ser contada em primeira pessoa somado ao protagonista ser um escritor me vez imaginar que, ao final da história, ele escreveu esse livro nas minhas mãos. Para mim parecia ser um fechamento perfeito para o ciclo. Da forma que o livro terminou acabou me dando a impressão do personagem ser um verdadeiro egoista filho da puta. Vai ver que é.

Em suma, o livro é muito bom. Por enquanto está na minha (curta) lista de “melhores romances brasileiros de 2013.”



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O Homem Fragmentado
Só Outro Blog (Blog do Tibor Moricz)